Júlio Dinis
Cartas ao meu primo José Joaquim Pinto Coelho.
«Venho uma vez ainda, movido de ansiedade
Dos teus, às alegrias, meus júbilos unir;
Queimar débil incenso nas aras da amizade,
Lembrar-me do passado, falar-te do porvir.
«Lembrar-me do passado, desviando a escura tela
Que as cenas dessas eras aos olhos nos cerrou...
Falar-te do futuro, mostrando-te essa estrela
Que para a juventude sempre nos céus radiou...
«Parar, onde a planície se espraia, vasta, imensa?
E a perspetiva se orna de flores e de luz?
Parar, pendida a cara, sem ânimo, sem crença,
Vergado sob o peso de imaginária cruz?
«Isto nos nossos anos, isto na nossa idade,
Tão cheia de futuro, de alento e de fé!
Oh, não! Para nós a esperança; deixemos a saudade!
Deixemos a flor murcha que outra em botão já ó!
«Saudemos o futuro, como a risonha aurora
Que tinge o alto dos montes de purpurina cor!
Saudemos o futuro à voz consoladora,
Que nos fale, em segredo, de uma época melhor!
«Da lira pelas cordas correndo as mãos nevadas
Tira sentidas notas de uma imortal canção...
Nem das harpas eólias, nos olmos pendurados,
As extrai tão sonoras, da noite, a viração...
«Não são da Terra as notas da música maviosa
Que escuto, não; são ecos de música no Céu...
Com a citara dos anjos, em nuvens cor de rosa,
Esta visão celeste junto de nós desceu.
«Cantando, pouco a pouco, seu rosto se ilumina...
Nos lábios tudo é risos; é tudo vida o olhar...
Como, na madrugada, se despe de nebrina
A risonha paisagem que o sol vem animar.
«Falou na paz dos justos, falou na recompensa
Que espera os virtuosos na celestial mansão...
Para os Céus apontando, disse inspirada: — Crença! —
Abandonando a Terra, disse saudosa: — Irmão ! —
1862.