Marquesa de Alorna
Musas, quer há tempos, mágoas prolongadas
Calaram sem piedade! Ouvi meus brados!
Surdi das Helicóneas grutas, vinde
Acolher-me de novo!
Qual navegante que a borrasca arroja
Por incógnitos mares, e a quem foge
A terra que procuras baixos, penhas,
É quanto aflito encontra;
Tal fui horas amargas consumindo.
Caliginosos ares me cercaram,
Naufraguei sem amparo em sítios hórridos,
Toquei do Pólo os gelos.
Nevou sobre o meu plectro o frio Arcturo,
Perdi do Estro as luzes, perdi vozes,
Febo apagou-se. Ó Musas! deste abismo
Resgatai vossa aluna!...
Mas qual fantasma ingente ao norte avisto?
Alcantilada serra os Céus invade!
Favónios brandos, aportai-me à praias
Salvai comigo a lira!
Cessai, ventos cruéis! Mostrai-me a terra!
Benfazejas Deidades da Harmonia,
Serenai estes ares revoltosos,
Prestai-me imagens doces!
Coluna argêntea de águas cristalinas
Impetuosa desce de alto serro;
Quebra no encontro de um rochedo, e forma
Espaçosa cortina.
A superfície crespa vai partindo
Seus cristais pelas várias penedias,
E do vapor aquático que espalha
Enche o largo ambiente.
Ali do Sol os raios refratados
Ornam de íris as roupas circundantes,
E de cores prismáticas tingindo
O nevoeiro, alegram.
De arbustos lindos coroam-se os rochedos;
À dextra, ao longe, rochas estaladas,
De musgo, fetos, ervas e de flores
Pomposas se revestem.
Por entre arbustos e árvores copadas,
O rio que dimana da cascata
Vai perder-se no mar; à beira de água
Chama a Vate ao descanso.
Ó Natureza, imensa Natureza!
Como aqui te apresentas deleitável!
A mente, que te abrange e te contempla,
Extática se enleva!...
Quase que a terra cinge o Ártico Pólo,
E muito além dos Trópicos se alonga;
Águas imensas, gelos gigantescos
O Antártico defendem.
Que multidões de espécies e de seres
Á humana aindagação prestam auxílio!
Como o engenho com as artes, com a ciência
Descortina o Universo!
Lira ociosa, rompe os teus concentos!
Canta a Navegação do mar, dos ares,
A Química, a Botânica, mil artes
Que doiram a existência!
Acima da matéria te remonta,
Sobe à Causa de tudo, acende na alma
Grato Vesúvio de um amor sem termo,
E o Criador adora!