Júlio Dinis
Os sinos da aldeia repicam de festa;
Pra ornar a capela de flores viçosas,
As mães das donzelas despojam de rosas
As sebes dos campos, moitas do vai;
O adro é juncado de funcho e espadanas;
À porta do templo festões de verdura;
Dos ninhos ocultos na verde espessura
Prorrompe das aves a voz festival.
O pároco velho, de pé desde a aurora,
Lidava contente por entre os contentes;
As mãos esfregando, entoava entre os dentes
Antífonas sacras, louvores a Deus.
Trabalha na igreja, trabalha no adro,
Nem sente o gravame de oitenta
Janeiros; Não há nessa turba de alegres festeiros
Mais válidos braços, mais fortes que os seus
Mas qual o motivo de azáfama tanta,
Que, desde a alvorada, se nota na aldeia?
Os velhos da terra, não guardam na ideia
Memória que fale de um júbilo assim.
É Rosa, a mais linda cachopa do sítio,
Que um rapaz abastado da aldeia vizinha,
Perdido de amores, ao altar encaminha,
E assim os amores conduz a bom fim.
Rosa, única filha de pais, que, já velhos,
Não têm neste mundo mais outra alegria,
Que a adoram, que a velam de noite e de dia,
A pálida Rosa vai-se hoje casar.
Os pais, de joelhos, em frente da Virgem,
Mil graças lhe rendem, sinceras, piedosas;
Mas, junto com as graças, também vagarosas,
As lágrimas de ambos se vão misturar.
No templo se junta luzido cortejo,
Da gente mais grada daqueles lugares,
Que em honra dos noivos aos sacros altares.
Vestida de festa, com júbilo vem.
O médico, o grave juiz de direito,
O bom mestre-escola, o mestre barbeiro,
Até o fidalgo da encosta do outeiro,
Que às bodas de Rosa não falta ninguém.
O padre com os olhos nublados de choro,
Os noivos prostrados no altar abençoa;
E em voz, que no peito de todos ecoa,
Lhes mostra o caminho que devem seguir.
No adro, à saída, confeitos e flores,
Caindo às mãos-cheias, alastram a estrada,
E Rosa, no braço do noivo apoiada,
As últimas bênçãos aos pais vai pedir.
Ai, pobres dos velhos! debalde procuram
Armar de sorrisos o triste rosto;
Aos olhos o choro lhes sobe incessante;
E o choro, coitados, não sabem reter.
E Rosa, ela mesma, nos braços dos velhos,
Cobrindo-os de beijos, ao seio os estreita;
Depois afastando-se, em lágrimas desfeita,
O adeus doloroso mal pode dizer.
Partiu. Era força. Deus manda que a esposa
Do esposo que escolhe partilhe o destino;
Proscrito que seja, sem lei, peregrino,
Por ele lhe ordena deixa mãe e pai.
Partiu. Desce a noite. Nos montes ecoa
Das ave-marias nota plangente,
Por entre os pinheiros a Lua nascente,
Tingindo o horizonte, já rúbida sai.
Mas, ai, a fogueira na casa dos velhos,
Ainda a essa hora no lar não crepita.
Baixará sobre eles a mão da desdita,
E mudos e imóveis nem sabem de si!
Ao lado um do outro sentados à porta,
Não tiram os olhos da esquina da estrada
Que Rosa seguira de choro orvalhada,
E mudos e imóveis conservam-se ali.
O anjo piedoso, que, ao termo do dia,
Recolhe o perfume das almas saudosas,
Ao ver destes velhos as faces chorosas,
Parou comovido, no voo subtil.
Depois, ajoelhando no trono celeste,
Pediu para eles do Eterno a piedade,
E um brando reflexo daquela saudade
Toldava-lhe o rosto nevado e gentil.
Na igreja da aldeia, volvidos seis dias,
Ouviam-se os sinos dobrar a finados,
E os muros do templo, de crepes forrados,
Das altas tocheiras sorviam luz.
E sobre o ataúde, cercado de incenso,
Ao som dos responsos que os padres diziam,
Ao lado um do outro, tranquilos dormiam
Os velhos esposos, ã sombra da cruz.
1868