Júlio Dinis
Ao despontares da amena juventude,
De galas e de flores ornaste o seio.
E de mil sonhos de prazer no meio,
Com que o peito se ilude,
Aguardaste o alvor do Sol fulgente,
Que a luz e vida ao coração dispensa,
De amores ideais, na dita imensa,
Deleitava a mente.
Ele surgiu! esse astro rutilante!
Não; efêmera luz, que instantes brilha,
Porém cujo fulgor cedo se humilha,
Nasce e morre inconstante.
Surgiu! não como a chama das estrelas,
Que em multidão infinda o céu povoam,
E pálidas o véu da noite coroam,
Quais lúcidas capelas;
Mas único brilhante, duradouro,
Como o astro do dia, que surgindo,
E luminosas vagas difundindo
Raios de fulgente ouro,
Dispersa na amplidão a imensa turba
Dos outros astros que no espaço giram,
Enquanto eles no céu sua luz admiram,
E nenhum o perturba.
Volveram anos, risos e fulgores
Da idade juvenil se desvanecem,
Mas não morre a afeição, mas não fenecem
Os teus cândidos amores;
Não fenecem, não morrem; crescem antes,
O sentimento e a razão os gera,
Sentimento e a razão, que Deus vertera
No teu ser, abundantes.
Volveram anos... e afinal? Gozaste
Essa ventura, esperança dos teus dias?
Ai, não; em vez do cálix de alegrias,
O do travor provaste.
Traíram-te! e um frio esquecimento
O prêmio foi do teu amor constante!
E a luz que te guiava fulgurante
Sumiu-se num momento.
E a dúvida não veio na tua alma
Negar de um Deus supremo a existência,
Descrer dessa irrisória providência,
Que aos maus concede a palma?
Oh! não; curvaste a cara angustiada,
Escondeste tuas lágrimas ardentes,
E mostraste-te aos olhos indiferentes
Vitima resignada.
Eles veem nos teus lábios o sorriso,
E julgam que provém do esquecimento!
Cegos! vissem-te à luz do sentimento
Como eu te diviso.
Saberiam que angústia ele escondera,
Que pungente amargura nele oculta!
Saberiam que a dor que mais avulta
Não é a mais sincera.
Que mundo! Àquele que a sua fé trairá,
Os prazeres, os gozos, a riqueza;
A ti saudade, isolação, tristeza!
E não é Deus mentira?!
E o crime folga, e é vítima a inocência!...
Não folga; o Céu é justo, e o mau condena,
Dá-lhe o remorso por amarga pena,
E a ti a consciência.
35 de Abril de 1860.
Nota do Autor. — Se chegar aos olhos da pessoa a quem é dirigida, ela
compreenderá.