Marquesa de Alorna

O VALE

Imitada de Lamartine (*)

 

[() Alphonse de Lamartine, escritor, poeta e político francês] *

 

Meu coração fatigado,

E mesmo até da esperança,

Com súplicas importunas

O Destino já não cansa.

 

Vale, onde a infância passava

Sem me aperceber da sorte,

Dá-me asilo por uns dias,

Para esperar pela morte.

 

Eis essa estreita vereda

Que ao recluso Vale traz:

Eis o bosque, que me cobre

De sombras, silêncio e paz.

 

Dois regatos, escondidos

Entre berços de verdura,

Vão, serpeando, perder-se,

Sem nome. nesta espessura.

 

A fonte destes meus dias

Também assim tem corrido;

Esgota-se mansamente,

Sem regresso nem ruído.

 

Como a criança que embala

Do canto a monotonia,

Com o murmúrio das águas

A minha alma adormecia.

 

De um verde muro cercada,

E um limitado horizonte,

Ah! como então me bastava

Ver os Céus e ouvir a fonte!

 

Muito vi, senti; na vida

Tudo já me sobejava:

Só do Letes o sossego

Nestes ermos invejava.

 

Sítios belos, convertei-vos

Nesses onde tudo esquece!

O esquecimento agora

Só ventura me parece.