Marquesa de Alorna

Oferenda aos mortos

Aquele outeiro sombrio

Está de névoas coberto;

Escorre entre canas, perto,

Fraco e murmurando, um rio.

Naquele negro pinhal,

Como tocha funeral,

Brilha modesta candeia,

Que ao pastor pobre alumeia

Com a luz embaciada;

Vem por corvos arrastada

A Tarde;

A luz apenas das estrelas arde!...

 

Que pavor

Espalha em todo o campo a minha dor!...

Das frestas dos edifícios

Vergonhoso mocho voa,

E com seus uivos atroa

Os Génios dos malefícios;

Saem Fadas peregrinas

A dançar sobre ruínas,

E vêm por entre perigos

Gnomos, trasgos, inimigos.

Alumeia

O pirilampo incerto esta coreia.

 

Que pavor

Espalha em todo o campo a minha dor!...

Estão todas apagadas

As luzes da Outra-Banda;(*)

Pelas praças ninguém anda,

Vagam as sombras caladas.

[() Nome que vulgarmente se dá a Almada e seus arredores (Nota da Autora).] *

 

Naquele triste convento(*)

Dobra o sino sonolento;

O ar com os sons esmorece.

O horizonte empalidece;

 

[() O Convento da Boa-Morte, não longe do qual morava eu então (Nota da Autora)] *

 

O vapor autunal

Cobre-o de um véu fatal, Sombrio.

Suspira o vento e nasce o calafrio.

 

Que pavor

Espalha em todo o campo a minha dor!...

Vêm aflitos pensamentos,

Vêm desde Sintra queixosos,

Vagar ternos e medrosos

Ao redor de monumentos...

A campa de Isa(*) alvejando,

A escuridão vai cortando...

Dorme a quieta africana...

Dormirá a raça humana...

 

[() Isa, moura sepultada na margem do rio de! Alcântara, cuja campa alveja e se percebe de longe (Nota

da Autora).] *

 

Não rompe o mundo

Letargo tal, um sono tão profundo.

Da manhã,

Para os mortos, a graça, a luz é vã.

 

Que pavor

Espalha em todo o campo a minha dor!...

Com teu clarão moderado,

Que objeto me estás mostrando?

Que me estás afigurando,

Crepúsculo descorado?...

Sombra majestosa e cara,

Que nas mãos da Parca avara

Enches todo o meu sentido!

És tu, Armínio(*) querido?

Se te retrata a saudade,

Apaga as cores a realidade.

 

[() O Conde de Oeynhausen, marido da autora] *

 

Entretanto,

O teu túmulo lava este meu pranto.

Que pavor

Espalha em todo o campo a minha dor!...

Sobre o teu marmóreo altar,

Onde oculto me magoas,

De plátano cinco coroas

Venho hoje depositar.

Recebe, Armínio, a mais pura;

Duas leve-as a ternura,

Do meu choro comovida,

A Márcia, a Lília querida; (1*)

Aos dois penhores

Dos nossos tristes, doces amores, (2*)

Condoída,

Ofereço duas, oferecera a vida.

 

[() 1- Minha irmã, a Condessa da Ribeira, e minha mãe, a Marquesa de Alorna; 2 - Os meus dois

filhos, M. Carlos, e Maria Regina, falecidos. (Notas da Autora)] *

 

Que pavor

Espalha em todo o campo a minha dor!...