Luís Vaz de Camões

Que o Rudo Engenho Meu me Desengana

De tão divino acento em voz humana,

De elegâncias que são tão peregrinas,

Sei bem que minhas obras não são dignas,

Que o rudo engenho meu me desengana.

 

Porém da vossa pena ilustre mana

Licor que vence as águas Cabalinas ;

E convosco do Tejo as flores finas

Farão inveja à cópia Mantuana.

 

E pois a vós, de si não sendo avaras,

As filhas de Mnemósine fermosa

Partes dadas vos têm ao mundo claras ;

 

A minha Musa, e a vossa tão famosa,

Ambas se podem nele chamar raras,

A vossa de alta, a minha de invejosa.