António Pereira Nobre

Certa Velhinha

2

 

Além, na tapada das Quatorze Cruzes,

Já não é a velhinha que vae a passar:

Um grande cortejo cheiinho de luzes,

Anninhas da Eira que vae a enterrar.

 

Falla d'um pastor:

 

«Anninhas da Eira! Anninhas da Eira!

Cantae, raparigas, cantae e chorae!

Morreu, coitadinha! sorrindo, trigueira,

Como um passarinho, sem soltar um ai.

 

Quando era pequeno, levava-me á escola,

E quando, mais tarde, cresci e medrei,

Oh danças nas eiras, ao som da viola!

Nas danças de roda, que beijos lhe dei!

 

Os annos vieram, os annos passaram,

Meu fado arrastou-me, da aldeia sai:

Nunca mais meus olhos seus olhos tocaram,

Perdi-a de todo, nunca mais a vi...

 

E além, na tapada das Quatorze Cruzes,

N'uma noite d'estas com vento a ventar,

Ó meu Deus! é ella que vae entre luzes!

Ó meu Deus! é a Anninhas que vae a enterrar!

 

Olá! bons senhores, vestidos de preto,

Deixae a defunta, que a levarei eu!

O suor alagava-vos, eu levo o carreto...

O caixão de Anninhas é tambem o meu!

 

Tenho os relampagos, deixae-me sem velas

A rezar por ella, sob o temporal!

Cai-me no peito, cravae-m'as, procellas!

Cruzes da tapada, em forma de punhal!»

 

Mas os bons senhores, de preto vestidos,

Cigarros accezos, e velas na mão,

Lá passam ao vento, com sete sentidos,

Com medo que, ás vezes, não seja um ladrão...

 

«Mãos das ventanias! mãos das ventanias!

Tirae-lhes a Anninhas e levae-a a Deus!

Com suas mãosinhas, agora tão frias,

Irá na viagem a dizer-me adeus...

 

Ó vento que passas! corcel de rajada!

Assenta-nos ambos no mesmo selim:

Quero ir mais ella na longa jornada...

Quero ir com Anninhas pelo céu sem fim!

 

Ó Leste, que trazes as rolas, ás costas,

Quaes rolas, leva-nos aos pés do Senhor!

Quero ir como ella, assim de mãos postas...

Quero ir com Anninhas para onde ella for!

 

Ó Norte dos Marços! ó Sul das procellas,

Levae-nos quaes brigues, como azas, levae!

Levae-nos como aguias, levae-nos quaes velas...

Quero ir com Anninhas para onde ella vae!»

 

3

 

Além, na tapada das Quatorze Cruzes,

Que triste velhinha que vae a passar!

E que olhos aquelles que parecem luzes...

Aonde irá ella? Quem irá buscar?