Júlio Dinis

PROFISSÃO DE FÉ

Se vires a lira entoar alegrias,

Prazeres e orgias, das festas à luz,

Não creias as vozes que solta; mentida

É toda essa vida, que nela transluz.

 

Se a vires cantando felizes amores,

Perfumes de flores parecendo aspirar,

Não creias; minha alma surgir não viu ainda

A aurora bem-vinda de grato raiar.

 

Se vendo no mundo somente ímpias cenas,

Pérfidas apenas, funestas paixões,

De escárnio e desprezo soltar os seus cantos,

São falsos; que em lágrimas lhe vão ilusões.

 

Porém, quando triste, falar da saudade,

Em grata ansiedade fitar o porvir

Em sonhos de esperanças, talvez que mentidas,

Soltar seus gemidos, temor exprimir;

 

Se a ouvires falando de chamas ocultas

Que n'alma sepultas encobrem seus véus,

Quais fogos acesos ao ar elevados,

Ardendo ateados, numa ara sem Deus.

 

Se a vires nos cantos falar magoada,

Da luta travada no meu coração,

Que muito deseja, que tanto empreende

E em vão se defende da ignota prisão.

 

Ouvindo-a em segredo, soltar suas queixas

E em tristes endeixas sentida gemer,

Chorar o passado, odiar o presente

E ao longe somente fulgores entrever.

 

Então crê os hinos que ouvires à lira,

O peito os inspira, do peito eles vem,

A mão indiferente suas cordas não pulsa

Febril e convulsa se agita também.

 

22 de Abril de 180

 

Nota do Autor — Esta é como indica o título, uma profissão de fé. Por ela

avalie-se a verdade de todas as poesias que fazem parte deste álbum íntimo. Se

o meu modo de pensar fizer mudança ao seu tempo virá nova profissão. Até

aqui é esta que regula.