Francisco de Sá de Miranda

Carta

A vida desaparece,

E entretanto geme e jaz

O que caiu: e acontece,

Que dum mal, que se lhe faz,

Outro mor se lhe recresce.

 

Pena e galardão igual

O mundo a direito tem,

A uma regra geral;

Que a pena se deve ao mal,

E o galardão ao bem.

 

Se alguma hora aconteceu

Na paz, muito mais na guerra,

Que a balança mais pendeu,

Faz-se engano às leis da terra;

Nunca se faz às do céu.

 

Entre os lombardos havia

Lei escrita, e lei usada,

Como se sabe hoje em dia;

Que onde a prova falecia,

Que o provasse a espada.

 

Ali no campo às singelas,

Enfim morrer ou vencer,

Fosse qual quisesse delas:

Não era melhor morrer

A ferro, que de cautelas?

 

Ao nosso alto e excelente

Dom Dinis, rei tão louvado,

Tão justo, a Deus tão temente,

Falsa e maliciosamente,

Foi grande aleive assacado.

 

Ele posto em tal perigo,

Rei que rei fez e desfez;

Contra o malicioso inimigo,

Foi-lhe forçado esta vez

Chamar-se a esta lei que digo.

 

E juntamente às cidades

A quem cumpriu de acudir,

Pelas suas lealdades:

Que tão más são as verdades

Às vezes de descobrir!