Marquesa de Alorna

A Alceste

Alceste, sábio Alceste, revolvendo

Rotos papeis, das Musas inspirados,

De entregar-te quaisquer estou tremendo,

Não sejam de outros olhos criticados.

 

Eu falo em liberdade; uma alma nova

Como a minha, não sofre o vil disfarce.

Que sei eu se o que digo se reprova?

Que sei se deve a Musa limitar-se?

 

Bem como o bom Despréaux, não me equivoco;

O nome próprio dou à fraude, ao vício;

A meu favor Verdade, Astreia invoco,

Deidades que dão pouco benefício.

 

Como do Olimpo os Deuses são fingidos,

Sem que ofenda a moral, que firme adoro,

Finjo Dianas, Martes e Cupidos,

Falo com eles, finjo que os imploro.

 

Não sofre a nossa terra esta linhagem,

País onde se queimam feiticeiras,

Descobre o mal numa inocente imagem,

Como o demónio em casa das primeiras.

 

Há ciúmes aqui até de Apolo;

Basta que uma mulher com ele fale,

Para ter liberdade qualquer tolo

De mandar seja presa até que estale.