Marquesa de Alorna
Acordai, ternas aves, com meu canto!
Esposa de Titão, suspende o pranto!
Se ao filho querido
No peito enternecido
Crias de choro amargo ainda um tributo,
O rosto mal enxuto
Volve a mim, pois que faço hoje a saudade
Primeira saudação da claridade.
Lança os olhos celestes
Nestes campos agrestes,
Suprema Divindade, e reconhece
O asilo em que a minha alma desfalece.
Se males não vulgares
São, Titónia celeste, os meus pesares,
Olha de lá do Céu,
Esquecerás teu dano pelo meu.
Por mais que espalhes rosas matutinas,
Por mais frescas boninas
Que à madrugada o lindo prado ofereça,
Não há bem com que os males meus esqueça.
Em vão, submissa, a dura sorte imploro;
Insensível ao choro,
Aos ais que hoje derramo,
O Destino, que eu chamo,
Indignado responde aos meus clamores,
E cruelmente aos lábios meus aplica
A taça adonde encerra os seus furores.
Em vão queixoso explica
Meu peito em seus suspiros
Os danos meus às grutas, aos retiros:
Átis, se ouve, num tronco transformado,
Insensível se mostra ao meu cuidado;
Anaxarte, que a rocha ainda mais dura,
Não se comove à minha desventura;
O Tejo, que algum dia, se eu cantava,
Erguido sobre as ondas me escutava,
Hoje nem se enternece,
E ao som dos meus gemidos adormece.
Bem pode alguma Ninfa, comovida
De ver tão triste vida,
Contar a minha história com ternura
No bosque ou na espessura:
Os pastores, tão duros como as penhas,
Ao som da branda avena,
Comentam com um sorriso a minha pena,
Mostram mais que de feras ter entranhas.