Júlio Dinis
Já despe galas
A natureza
Véu de tristeza
Tudo envolveu;
Desfolha o Outono
No prado as flores,
Densos vapores
Sobem ao céu;
Gemem os ventos
Nas densas matas;
Das cataratas
Dobra o fragor;
Calam-se os cantos
Na umbrosa selva;
Da húmida relva
Cresce o verdor.
Nas nossas terras
O sol desmaia,
O alcíone na praia
Triste gemeu:
Aves viajoras,
Cruzai os mares,
De outros lugares
Buscai o céu.
E as andorinhas
Vão-se juntando,
Bando após bando
Na beira-mar;
Deixam as neves
Já iminentes,
Auras clementes
Vão demandar.
Chama-as o instinto,
Que à turba alada
Indica a estrada
Da imigração.
Mas, ai, na selva
Jaz esquecida
Uma, ferida
Por cruel mão.
Debalde a vítima
Da má ventura
Inda procura
O voo erguer;
Debalde; exânime
Cai na floresta,
Já não lhe resta
Senão morrer.
Ela ouve o canto
Das companheiras,
Vê-as ligeiras
Passar além;
Chama-as, não lhe ouvem
A voz sumida,
Que na fugida
Nada as detém.
«Ó companheiras
De horas felizes,
A outros países
Passais sem mim?
Sob os rigores
Do triste Outono,
Ao abandono
Deixais-me assim?!
«Tu, doce amiga,
Fiel esposa,
Nem tu, saudosa,
Vens ter aqui?!...
Mas vai, que o Inverno
Tardar não deve,
Fugi da neve,
Irmãs, fugi!
«Ide a esse clima
Que vos espera;
Na Primavera
Regressareis;
Voltando à sombra
Desta verdura,
A desventura
Me chorareis.»
Calou-se. Eis súbito
Trazem-lhe os ventos
Débeis lamentos
De triste voz.
Ouve-os, levanta-se,
A dor, esquece,
Canta... emudece
E morre após.
Eis que da moita
Dali vizinha
Uma andorinha,
Gemendo, sai;
Ao ver do esposo
A triste sorte,
Também da morte
Fenda cai.
E sobre os mares
O alado bando
Vai demandando
Outro país.
E cedo a neve
Do frio Inverno
Esconde o terno
Par infeliz.
1869