Júlio Dinis
Sempre o riso nos teus lábios! Na alva cara
Nem uma sombra apenas!
Nem uma nuvem só no horizonte
A ameaçar-te com futuras penas!
É possível haver ainda no mundo
Quem viva e não padeça?!
Num vale de agonias tão profundo.
Quem haverá que em júbilos se esqueça!
Se hoje os dias teus correm amenos,
Olha para o passado.
Ele saudades te dará ao menos
Dos que à beira do túmulo hás deixado.
E nem um só instante de tristeza
Te dão essas memórias?
O teu passado é estéril? Não te pesa
Uma só dessas cenas transitórias?
Pois bem; encara as trevas do futuro
E diz se as não receias?
Fitando esse horizonte ignoto e escuro
São ainda de prazer tuas ideias?
Dizem que a taça do prazer — na vida
Contém sempre o absinto,
Mas tu, só de alegrias envolvida
Não sabes o amargor... Que digo? Minto!
Tudo isso é aparência. Se eu puder
Ler-te no pensamento
Quem sabe se até mesmo estremecera
Ao deparar com um íntimo tormento?!
Quem sabe quantas vezes é mentida
Dos lábios a alegria!
Quantas vezes no peito comprimida
Nos devora latente uma agonia!
E morto o coração ainda persiste
Um sorriso aparente,
Simulando um prazer que não existe,
Fingindo uma ilusão que a alma não sente.
Este vislumbre de mentido gozo
Que nos lábios se estampa
É como as flores do vergel viçoso
Que nos encobrem a hediondez da campa.
8 de Julho de 1860