Gil Vicente

O testamento de Maria Parda

Pranto de Maria Parda

MARIA PARDA

 

Raivou tanto sideraque

E tanta zarzagania,

Vou-me a morrer de sequia

Em cima d'hum almadraque.

E ante de meu finamento,

Ordeno meu testamento

Desta maneira seguinte,

Na triste era de vinte

E dous desde o nacimento.

 

 

TESTAMENTO

 

A minha alma encommendo

A Noé e a outrem não,

E meu corpo enterrarão

Onde estão sempre bebendo.

Leixo por minha herdeira

E tambem testamenteira,

Lianor Mendes d'Arruda,

Que vendeo como sesuda,

Por beber, at'á peneira.

Item mais mando levar

Por tochas cepas de vinha,

E hua borracha minha

Com que me hajão d'encensar,

Porque teve malvasia.

Encensem-me assi vazia,

Pois tambem eu assi vou;

E a sêde que me matou,

Venha pola cleresia.

Levar-me-hão em hum andor

De dia, ás horas certas

Que estão as portas abertas

Das tavernas per hu for.

E irei, pois mais não pude,

N'hum quarto por ataude,

Que não tivesse agua pé:

O sovenite a Noé

Cantem sempre a meude.

Diante irão mui sem pejo

Trinta e seis odres vazios,

Que despejei nestes frios,

Sem nunca matar desejo.

Não digão missas rezadas,

Todas sejão bem cantadas

Em Framengo e Allemão,

Porque estes me levarão

Ás vinhas mais carregadas.

Item dirão per dó meu

Quatro ou cinco ou dez trintairos,

Cantados per taes vigairos,

Que não bebão menos qu'eu.

Sejão destes tres d'Almada,

E cinco daqui da Sé,

Que são filhos de Noé,

A que som encommendada.

Venha todo o sacerdote

A este meu enterramento,

Que tiver tão bom alento

Como eu tive ca de cote.

Os de Abrantes e Punhete,

D'Arruda e d'Alcouchete,

D'Alhos-Vedros e Barreiro,

Me venhão ca sem dinheiro

Até cento e vinte e sete.

Item mando vestir logo

O frade allemão vermelho

Daquelle meu manto velho

Que tem buracos de fogo.

Item mais, mais mando dar

A quem se bem embebedar

No dia em que eu morrer,

Quanto movel hi houver

E quanta raiz se achar.

Item mando agasalhar

Das orphans estas nó mais

As que por beber dos paes

Ficão proves por casar.

Ás quaes darão por maridos

Barqueiros bem recozidos

Em vinhos de mui bôs cheiros;

Ou busquem taes escudeiros,

Que bebão coma perdidos.

Item mais me cumprirão

As seguintes romarias,

Com muitas ave-marias.

E não curem de Monção.

Vão por mim á Sancta Orada

D'Atouguia e d'Abrigada,

E a Curageira sancta,

Que me derão na garganta

Saude a peste passada.

Item mais me prometti

Nua á pedra da estrema,

Quando eu tive a postema

No beiço de baixo aqui.

E porque gran gloria senta,

Lancem-me muita agua benta

Nas vinhas de Caparica,

Onde meu desejo fica

E se vai a ferramenta.

Item me levarão mais

Hum gran cirio pascoal

Ao glorioso Seixal

Senhor dos outros Seixaes;

Sete missas me dirão

E os caliz encherão,

Não me digão missa sêcca;

Porque a dor da enchaqueca

Me fez esta devação.

Item mais mando fazer

Hum espaçoso esprital,

Que quem vier de Madrigal

Tenha onde se acolher.

E do termo d'Alcobaça

Quem vier dem-lhe em que jaça:

E dos termos de Leirea

Dem-lhe pão, vinho e candea,

E cama, tudo de graça.

Os d'Obidos e Santarem,

Se aqui pedirem pousada,

Dem-lhes de tanta pancada

Como de maos vinhos tem.

Homem d'Entre Douro e Minho

Não lhe darão pão nem vinho;

E quem de riba d'Avia for

Fazê-lhe por meu amor

Como se fosse vizinho.

Assi que por me salvar

Fiz este meu testamento,

Com mais siso e entendimento

Que nunca me sei estar.

Chorae todos meu perigo,

Não levo o vinho que digo,

Qu'eu chamava das estrellas,

Agora m'irei par'ellas

Com grande sêde comigo.