Júlio Dinis
Fugi, fantasmas lívidos!
Fugi, lúgubres sonhos!
Espectros tão medonhos
Deixai-me em paz! parti!
Não vedes como fúlgida
A Lua do Sol já surge?
Deixai-me; o tempo urge,
Nas trevas vos sumi!
Há muito que a ave lúgubre
Calou seus tristes hinos;
E, ao longe, a voz dos sinos
Vos diz — eis a manhã!
E vós, negros espíritos,
Travando estranha dança,
Me murmurais: Vingança!
Vingança?... Sombra vã!
Esperais que ao som horrífico
De vossos mil clamores,
Pungindo de terrores
Me roje pelo chão?
Que ao ver as minhas vítimas
Surgir da sepultura
Cedendo a atroz tortura
Eu clame por perdão?
Cingi o vosso sudário,
Voltai ao frio leito,
Que dentro do meu peito
Não despertais horror.
Dormi o sono gélido
Que a morte vos prepara
Deixai para turba ignara
Imagens de terror!
Eis o sombrio préstito
Das vítimas sangrentas!
As faces macilentas,
Tintas de sangue e pó!
Rojando as alvas túnicas
No sepulcral lajedo
Caminham, como a medo...
Infundem pasmo e dó.
Entoando um canto fúnebre,
Qual último gemido,
Dos ossos ao ruído,
Acercam-se de mim!
Formam-se em vasto círculo,
E erguendo-se horrível grito,
Bradam-me: Sê maldito,
Qual já o foi Caim!
E de medonha abóbada
Os ecos despertando,
O seu grito continuando,
Repetem-me: Caim!
Oh! que mortal angústia
Este suplício eterno!
E nem no próprio Inferno
Se penará assim!
Mas não... não tremo .. rio-me
Dos vãos terrores da turba;
Só ela se perturba
Com tétricas visões.
Eu não, que desde a infância
Travei ardentes lutas,
E, qual as rochas brutas,
Sorri aos furacões.
E, se me vedes trêmulo,
Perante vós curvar-me
E a cara rociar-me
Um frígido suor...
Embora! a alma intrépida
E forte permanece,
O corpo é que parece
Ceder a um frio horror!
Sob o lençol funéreo
Que os membros vos recobre
O meu olhar descobre
Os traços de um punhal.
E o sentimento do ódio
Que o vosso aspeto exprime
Traz-me à memória um crime...
Um estertor mortal!
E eu vos fito impávido!
A ti, ancião primeiro;
No instante derradeiro
Louvavas o teu Deus,
Tentaste opor-te às fúrias
Da minha ardente coorte
Foi negra a tua sorte!
Caíste aos golpes meus!
Do templo no vestíbulo
Severo te elevavas
E anátemas lançavas
Tremendos contra nós;
Ao grito de sacrílegos
O bando estremecera,
Sem mim talvez cedera
Em breve à tua voz.
E tu, mancebo? Adiantas-te
Com pálido rosto?
Pra libertar a amante
Voaste a combater;
Cego! que no teu ímpeto
Tolheste-me a carreira!
Exangue na poeira
Cedo te fiz volver.
Menos do que tu, misero,
O incauto viandante
Se se encontrou diante
Do carro que ágil vem;
No seu giro mais rápido
Que o próprio pensamento
Esmaga-o num momento
E livre, passa além.
E tu que me olhas túrbida
Qual rábida leoa
Que o bosque que o ar atroa
Chamando os filhos seus;
Num maternal delírio
Ao veres-me, furiosa,
Ergueste-te raivosa
A defender os teus.
Mas qual a onda túmida
De encontro à rija fraga,
Mas qual a fina adaga
De encontro ao forte arnês,
Dobrou teu corpo lânguido
Ao encontrar meu peito,
Caindo em pó desfeito...
Nem vacilar me fez!
E tu que ergues, pálida,
Coroada de alvas flores?
Na quadra dos amores
Pendeste, flor, para o chão.
Crestou-te as lindas pétalas,
De embriagador perfume.
O fogo do ciúme,
A lava da paixão!
Enquanto nos meus êxtases
Contigo eu só sonhava,
O teu seio se agitava
Pensando noutro amor;
Então... na minha cólera
Perdida toda a esperança.
Jurei cruel vingança;
Cumpri-a com rigor.
Volvei aos frios cárceres,
Ao sepulcral jazigo,
Onde buscais abrigo
Quando desponta o Sol.
E os rostos cadavéricos
Aos matutinos raios,
Espectros, ocultai-os
No funeral lençol.
Mas outro se ergue súbito!...
Que vago horror me infunde!
Que estranha luz difunde
Se eleva o seu olhar!
Descobre o rosto, fita-me...
Que vejo! é ele, o infante
Que num fatal instante
Na campa fiz rolar.
No teu suspiro último
Que triste melodia !
Na hora da agonia
Sorriste para mim!
Esta lembrança punge-me,
É dor que não se exprime.
Ai! nunca a voz do crime
Me fez sofrer assim.
Ai! foge, foge, poupa-me
O horror da tua vista.
Que força há resista
A um tormento igual?...
Oh! que vergonha! Lágrimas!
O lúgubre cortejo
Sorrir-se ufano vejo
Com júbilo infernal.
Embora! Espectros, ride-vos,
Sou fraco, anseio tremo.
Nem no momento extremo
Se pode sofrer mais!
Fogem-me as forças, cansa-me
A luta, caio exausto;
Ó meu destino infausto
Que dores me guardais?!
De mim ei-los já próximos
E os descarnados braços
Agitam nos espaços
Soltando imprecações,
E ao som dos seus anátemas
Mil sombras pavorosas
Me arrastam às tenebrosas
Sombrias regiões.
À chama dos relâmpagos
Já treme a própria terra;
E qual enorme serra
O mar se eleva aos céus,
Eis a mansão dos réprobos
E os fogos infinitos
Onde ardem os proscritos
Da habitação de Deus.
Oh! longe este espetáculo!
A morte, antes a morte!
Talvez então a sorte
Conceda ao morto paz.
Talvez transportando os pórticos
Da sepulcral morada
Não reste do homem nada
Além do pó que jaz.
Então, qual som da Pátria
Soa o proscrito ouvido,
O meu último gemido
Me soará também;
Mas... quem me diz que as ânsias
Deste cruel tormento
Têm fim no pensamento
Não vão da campa além?
A vida é me um martírio;
Minha alma outrora forte
Ao sopro de agra sorte
Vergou, pendeu pró chão;
Nem mesmo a paz do túmulo
Me resta! No seu seio
Penar ainda receio
Pra sempre! Deus perdão!
Mas... que suave bálsamo
O peito me serena?
Que luz tão grata e amena
Nas trevas me luziu?
Qual desesperado náufrago
Em tão negra procela
Nos céus uma alva estrela
Longínqua me sorriu!
Acaso é dado ao ímpio
Erguer as mãos manchadas
Ainda ensanguentadas
A celestial mansão?!
Pode ainda a sua súplica
Chegar aos pés do Eterno?!
Da beira já do Inferno
Clamar ainda perdão?!
Supremo Deus! atende-me!
Na Terra o meu castigo!
Porém, quando o jazigo
Se abrir ao pecador,
Quando em gelado féretro
A cara já cansada,
Pousar extenuada,
Perdoa-lhe, Senhor.
Novembro de 1859.
Nota do Autor — Escusado é dizer que não sou eu quem fala neste canto de
remorsos. Conquanto pecador, como todos os filhos de Adão, ainda não está
tão cheio o meu cabaz de culpas.
Aqui usei da liberdade, que nos dá a lira, boa ou má, de exprimir, não só os
nossos sentimentos, mas também os dos outros. Se bem ou mal o fiz, desta
vez, não o sei, e espero ter juízes que o possam saber melhor do que eu.