Júlio Dinis
Encantada visão, que me apareces
Por alta noite, em sonhos deleitosos,
Aonde vives tu? Onde encontrar-te
Posso, ó virgem? Acaso neste mundo
Em que o vício domina, acaso habitas?
Ou tens tua morada em áurea estrela,
Que, de noite, contemplo cintilando
Com trêmulo fulgor? Onde é que vives,
Virgem dos sonhos meus? Onde resides?
És tu, és sempre tu que me apareces
Quando cansado de afanosa lide,
Eu peço à fantasia um lenitivo;
Então vens-te sentar junto ao meu lado,
Compreendes meu penar. Saudosa, meiga,
A sofrer me convidas, apontando-me
Num risonho futuro, mil venturas,
Para compensar-me as dores. Os teus suspiros
Vêm casar-se com os meus, e dos teus olhos
Manam raios de luz, que secam na alma
A fonte dos desgostos. Em ti, anjo,
Só em ti, eu encontro um seio amigo,
Onde confio meus cruéis tormentos;
E no teu colo reclinando a cara,
Deixo livre correr o choro amargo,
Que todo o dia conservei suspenso
Para o esconder dos olhos indiferentes.
Nesses instantes de inefável gozo,
Todos os meus sentidos enlevados
Me fazem conceber tua existência,
Como se humanas formas te vestissem.
Figura-se-me ver teus negros olhos,
Belos, saudosos, para mim olhando
Com uma tal expressão, que é toda encantos,
Que é toda amor, que a alma me extasia.
Parece-me sentir arfar-te o peito
Em suave ondulação. Os teus cabelos,
Brandamente agitados pela brisa,
Os meus lábios vêm tocar, como exigindo
Que nas suas ondas de formoso ébano
Um beijo deposite. Então me falas,
E que falas, meu Deus! São harmonias,
Que nem os anjos no celeste império
Tão ternas as entoam. Os meus ouvidos
Distintamente as ouvem; responder-lhes
Porém não posso; delirante escuto,
E sem que eu fale compreender-me sabes;
Revelados te são meus pensamentos,
Sem que em palavras os traduza. Sinto
As tuas mãos entre as minhas. Enleado
Por teus mimosos braços me conservas.
O teu hálito em delírio me arrebata,
Em delírio de amor, tão puro e casto,
Qual o dos anjos na mansão divina.
Que momentos aqueles em que sonho!
E que triste é depois a realidade!
Por um instante de supremo gozo
Tenho, em troca, o amargo desespero
De uma terna ilusão desvanecida.
Porventura, meu Deus, nunca esta imagem
Terá realidade? Não existe
No mundo essa mulher, que eu imagino?
Que só contemplo nos meus dourados sonhos?
Esta sombra, este anjo que me fala,
Que me sorri e que me dá conforto
Quando em jardim de fadas delicioso,
Errante me vagueia a fantasia,
Essa virgem, de amor, criação risonha,
Acaso tem por pátria o nosso mundo?
Oh! se tem, Deus supremo, faz que em breve
Eu a possa encontrar. Senhor! permite
Que na Terra entreveja a paz que os justos
Gozam na alta morada onde habita
A tua celeste essência. Oh! possa eu vê-la
Essa formosa imagem de donzela,
Que, enquanto o corpo dorme e a mente livre
Vagueia em regiões desconhecidas,
Eu vejo ao lado meu... possa encontrá-la
Em breve nesta vida; e, se negada
Me for esta ventura, devo acaso
Noutro mundo melhor gozá-la, ao menos?
Ser-me-á dado sonhar eternamente?
Ver então sempre esse anjo e adorá-lo,
Com o amor, que na Terra guardei sempre
Reprimido no íntimo do peito?
Sereis acaso, ó sonhos, fiéis quadros
Da imensa dita que então lá me espera?
Se assim é, anjo meu, leva-me cedo
Para a tua morada aonde goze
Essa felicidade porque anelo
E que encontrar em vão busco na Terra,
1857.
Nota do Autor — Estes noventa e tantos versos foram os primeiros que me
saíram da pena com pretensões a poesia. Por isso os transcrevo. O assunto é
digno da idade em que os escrevi. Quem aos 17 anos não tenha sentido
alguma coisa de semelhante e experimentado o desejo de a exprimir, melhor
do que eu o pode fazer, é homem de cujas afeições e sentimentos permitir
me-ão duvidar.