Camilo Pessanha

Esvelta surge! Vem das aguas, nua...

Clepsydra

Esvelta surge! Vem das aguas, nua,

Timonando uma concha alvinitente!

Os rins flexiveis e o seio fremente…

Morre-me a bocca por beijar a tua.

 

Sem vil pudôr! Do que ha que ter vergonha?

Eis-me formoso, môço e casto, forte.

Tão branco o peito!—para o expôr á Morte…

Mas que ora—a infame!—não se te anteponha.

 

A hydra torpe!… Que a estrangulo… Esmago-a

De encontro á rocha onde a cabeça te ha-de,

Com os cabellos escorrendo agua,

 

Ir inclinar-se, desmaiar de amor,

Sob o fervor da minha virgindade

E o meu pulso de jovem gladiador.