Gil Vicente

Introdução da queixa

Pranto de Maria Parda

Eu so quero prantear

Este mal que a muitos toca;

Que estou ja como minhoca

Que puzerão a seccar.

Triste desaventurada,

Que tão alta está a canada

Pera mi como as estrellas;

Oh! coitadas das guelas!

Oh! guelas da coitada!

Triste desdentada escura,

Quem me trouxe a taes mazelas!

Oh! gengivas e arnellas,

Deitae babas de seccura;

Carpi-vos, beiços coitados,

Que ja lá vão meus toucados,

E a cinta e a fraldilha;

Hontem bebi a mantilha,

Que me custou dous cruzados.

Oh! Rua de San Gião,

Assi 'stás da sorte mesma

Como altares de quaresma

E as malvas no verão.

Quem levou teus trinta ramos

E o meu mana bebamos,

Isto a cada bocadinho?

Ó vinho mano, meu vinho,

Que ma ora te gastamos.

Ó travessa zanguizarra

De Mata-porcos escura,

Como estás de ma ventura,

Sem ramos de barra a barra.

Porque tens ha tantos dias

As tuas pipas vazias,

Os toneis postos em pé?