Gil Vicente

A introdução poética da Alma pelo Anjo

Auto da Alma

Anjo

 

Alma humana formada

de nenhuma cousa feita,

mui preciosa,

de corrupção separada,

e esmaltada

naquela frágua perfeita,

gloriosa!

Planta neste vale posta

pera dar celestes flores

olorosas,

e pera serdes tresposta

em a alta costa,

onde se criam primores

mais que rosas!

 

Planta sois e caminheira,

que ainda que estais vos is

donde viestes.

Vossa pátria verdadeira

é ser herdeira

da glória que conseguis:

andai prestes.

Alma bem aventurada,

dos anjos tanto querida,

não durmais!

Um ponto não esteis parada,

que a jornada

muito em breve é fenecida,

se atentais.

 

Alma

Anjo que sois minha guarda,

olhai por minha fraqueza

terreal !

de toda a parte haja resguarda,

que não arda

a minha preciosa riqueza

principal.

Cercai-me sempre ò redor,

porque vou mui temerosa

de contenda.

Ó precioso defensor,

meu favor!

Vossa espada lumiosa

me defenda!

 

Tende sempre mão em mim,

porque hei medo de empeçar,

e de cair.

 

Anjo

Pera isso sam e a isso vim;

mas em fim,

cumpre-vos de me ajudar

a resistir.

Não vos ocupem vaidades,

riquezas nem seus debates.

Olhai por vós;

que pompas, honras, herdades

e vaidades,

são embates e combates

pera vós.

 

Vosso livre alvidrio,

isento, forro, poderoso,

vos é dado

polo divinal poderio

e senhorio,

que possais fazer glorioso

vosso estado.

Deu-vos livre entendimento,

e vontade libertada

e a memória,

que tenhais em vosso tento

fundamento,

que sois por Ele criada

pera a glória.

 

E vendo Deos que o metal

em que vos pôs a estilar,

pera merecer,

que era mui fraco e mortal,

e, por tal,

me manda a vos ajudar

e defender.

Andemos a estrada nossa;

olhai não torneis atrás,

que o imigo

à vossa vida gloriosa

porá grosa,

Não creais a Satanás,

vosso perigo!

 

Continuai ter o cuidado

no fim de vossa jornada,

e a memória,

que o spírito atalaiado

do pecado

caminha sem temer nada

pera a Glória.

E nos laços infernais,

e nas redes de tristura

tenebrosas

da carreira, que passais,

não caiais:

siga vossa fermosura

as gloriosas.